Descobri que não gosto do silêncio. Pensava que todo o silêncio era de certa forma bom, mesmo no silêncio austero havia sempre um lado misterioso e aliciante. Mas não. O silêncio entre duas pessoas numa conversa é embaraçoso, o silêncio numa zanga é desconfortável, o silêncio de uma casa vazia é arrepiante. O silêncio cala e esconde os pensamentos, fazendo-nos ao mesmo tempo pensar nesses mesmos pensamentos, o silêncio faz-nos pensar em alturas em que não queremos pensar, o silêncio deixa o raciocínio pesado, toldando a claridade. E quando pedimos silêncio, nunca temos silêncio. E quando ficamos satisfeitos com o silêncio, estamos satisfeitos a ouvir os sons da Natureza. Descobri que não gosto do silêncio, daquele ensurdecedor e total.
Silêncio
Posted June 29, 2008 by sarssCategories: Uncategorized
Angústias
Posted June 11, 2008 by sarssCategories: Uncategorized
Escorrem pela janela gotas de algo que não é chuva. É quente, é doce até. Não é neve, não é gelo. Não se vê apenas se sente. Está ali a escorrer. Sentimos a pele húmida e um calor insuportável, não conseguimos secarmo-nos, por mais que tentemos as gotas reaparecem, carregadas de significado. Não conseguimos contorná-las, evitá-las, secá-las, ignorá-las, estão ali e apenas temos de viver com elas. Escorrem depressa ou lentamente, às vezes muitas outras vezes poucas. Há sempre uma, por mais pequena que seja, que desliza pela janela destorcendo, nem que seja pouco, a imagem do mundo lá fora; que desliza pela nossa pele a corromper os nossos sentidos. E lá vão elas a escorrer, e o melhor que podemos a fazer é ter uma amigável relação.
Não há nada (Em memória…)
Posted March 27, 2008 by sarssCategories: Uncategorized
Não há nada que venha. Não há nada que flua, não há nada. Porquê? Porque é que a minha mão não escreve livremente como se tivesse vontade e consciência próprias? Não há criatividade, chega tudo sem sabor, não há vontade, não há ânimo, não há importância no que faço. E porquê? Porque a vida se esvaí lentamente e eu nada posso fazer, apenas posso ficar à espera que aquele seja o último segundo, o último suspiro quente, o último sono tranquilo. E para que sirvo eu? Que faço eu? Não há nada que possa fazer, não há nada que possa ser mais prestável do que inútil, não há nada que eu possa sentir para além de um peso que se arrasta a cada minuto, a cada segundo. E quando parece acabar não há nada. Não há nada. Não há nada de novo, apenas tudo continua exactamente como estava, o mundo gira no mesmo sentido. Não há mudança. Afinal se não há nada de diferente porque foi acabar?
Momento Artístico (completamente fora do contexto do blog)
Posted March 7, 2008 by sarssCategories: Uncategorized
Poço
Posted February 9, 2008 by sarssCategories: Uncategorized
A terra fica negra, o mundo desaba aos nossos pés, o pano cai e é o fim. Para lá daquela porta não há nada, para lá daquela colina tudo acaba, no fim desta rua nada resta. Evitamos esta porta há tanto tempo, não subimos a colina mesmo quando a curiosidade aperta, não enveredamos por esta rua no nosso dia normal para o tornar diferente. Mas quando o atingimos um pico a nossa mão toca na maçaneta e ela é fria e dura, as nossas pernas esforçam-se e sobem a colina a tremer de cansaço, a remoer-nos com uma ligeira dor; quando não há mais nenhum sitio para ir os nossos pés guiam-nos para aquela rua e o beco é negro, mais negro que a noite e reduz-nos a nada. Para lá da porta não há nada mas isso não nos faz sentir melhor, o horizonte visto da colina é vazio mas ficamos na mesma, o beco aperta-se e sentimo-nos presos àquele chumbo sem medida. Então ficamos sozinhos porque nos afastámos do mundo, ele desmorona-se porque fugimos. O poço em que nos escondemos não é aconchegador, como devia, não é um refugio, como era suposto, é vazio, é duro, é gelado, é escuro. E não há escadas para subir, e não há atalhos, para cima é o caminho e nem sempre nos esforçamos para o seguir, porque o caminho é ainda pior que o buraco onde nos enfiámos.
